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Tata Nkisi Mutadiamy - Maurício Luandê

Educador da Rede estadual de Ensino e Especialista em Políticas para Igualdade Racial UNIFESP
Dirigente do Nzo Tumbansi Tua Ngana Zambi Mutakalambo SP - Capital.

Umbanda e Candomblé Como Coexistir?

Talvez seja um problema da contemporaneidade à busca por formas menos híbridas de cultos de matriz afro-brasileira. Basta observar as discussões polêmicas em redes sociais entre a legitimidade das práticas  da umbanda e do candomblé. 


Nestas discussões salienta-se conflitos e opiniões diversas, muitas até mesmo, desrespeitosas; “umbanda não cultua orixá”, “candomblé não pode cultuar preto velho”, “umbanda não tem iniciação às divindades dos cultos de nação” entre outras indagações. Sem falar da ideia de legitimidade entre os terreiros mais antigos conhecidos como “casa de raíz” com relação aos terreiros mais novos. 


Tanta confusão, ou tentativa de elucidação e esclarecimentos efetivam-se no apagamento do processo histórico na formação da umbanda e do candomblé. Segundo pesquisas da vasta bibliografia, Pierre Verger, Nina Rodrigues, Roger Bastide, Suely Carneiro entre outras autoras e autores, os primeiros registros sobre religiões africanas no Brasil, datam 1680 segundo os registros feitos pela Santa Inquisição. 


Neste sentido, apesar do enfoque colonialista por partes destes autores, diferentes povos atravessaram o atlântico congos, cabindas, rebolos, yorubás, fantis, axantes , haussás, malês etc. Por isso, que em terras brasileiras e nas Américas se misturam aos povos autóctones, ou seja, os indígenas nativos de cada território.


 Os calundus coloniais também surgem em datas anteriores a umbanda e ao candomblé a partir do século XVI demonstrando a flexibilidade dos fundamentos tradicionais. Quando traçamos determinado olhar crítico à formação histórica da umbanda e do candomblé, no mínimo devemos desconfiar das referências bibliográficas que foram escritas sob a ótica eurocêntrica. 


Citamos em primeira instância o movimento umbandista, advindo de misturas antes mesmo de Juca Rosa (1860), João de Camargo (1903) e Zélio Fernandino de Moraes (1908). Imaginem quantos outros protagonistas dessas religiões não foram citados e quanta diversidade de cultos também não foram descritos, seja pelo consórcio do tempo ou pela oralidade e falta de registros. 


Em segunda instância o candomblé,  religião afro-brasileira derivada de cultos tradicionais africanos, na qual há crença em um Ser Supremo (Olorum, Mawu, ou Zambi, dependendo da nação) e culto dirigido a forças da natureza personificadas na forma de ancestrais divinizados: orixás, voduns ou inquices, dependendo da nação começam a ser registrados de acordo com a procedência étnica de seus fundadores, também listados por frequentadores brancos que eram estudantes e acadêmicos no início do século XX, destarte conseguiram registrar a localidade destes. 


Porquanto a palavra que não cala é que certamente existiram outras manifestações anteriores. Deste modo, a iniciação, e as demais insígnias foram construídas por empréstimos,  cita-se a utilização do adoxu onde atualmente, espalhou-se além das fronteiras yorubas, o uso da senzala de origem Angola, o fio da vida e da morte como o hungebe de origem jeje,  culto aos caboclos, ou amaci umbandista como prática de realinhamento ao culto do “Ori” ou "Mutue", culto à cabeça, uma centena de ressignificações e compartilhamentos.

 

O que cada um faz em sua casa de forma equilibrada e respeitosa é a lei!  Para irmos direto ao cerne da discussão, as tradições africanas no Brasil, necessitam rapidamente sanar essas diferenças na fundamentação da umbanda e do candomblé, seja pela diversidade étnica em sua formação, ou principalmente pela sua força de adaptação e assimilação do sagrado.

 

Quando os praticantes dessas religiões obtêm consciência da postura política em assumir discurso respeitoso diante da crença do outro, certamente todos avançaremos no que tange à luta contra a intolerância religiosa. 


O que está em voga é a sociabilidade, pois o divino é algo subjetivo que sofre alterações devido a sua dimensão, a cada grupo religioso. 
Sigamos o ideal Pan-africanista que nasce da luta de ativistas negros em prol da valorização de sua coletividade étnico-racial.

 

Respeitosamente somos mais fortes, e ser fortes hoje é ter acesso às políticas públicas, objetivar liberdades de crença e direitos para todos os adeptos das religiões de matriz africana.