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Jackson Cruz Magalhaes

Candomblecista, biólogo e mestre em Sustentabilidade. Se dedica às pesquisas relacionadas ao racismo e injustiça ambiental, além de realizar palestras e debates sobre gênero, diversidade e transmasculinidades. 

Artigos e Mensagens

Corpos Trans no Candomblé: Acolhimento ou Segregação?


Nos últimos anos, as discussões sobre visibilidade e inclusão de pessoas trans em espaços diversos tem sido amplamente discutida. Isso não significa dizer que, do dia para a noite, nós saímos do limiar da marginalização e, automaticamente, tudo se transformou em um mar de rosas e aceitação. A questão é muito mais profunda. Existimos desde sempre, mas fomos apagados ao ponto de, durante muito tempo, muitas pessoas sequer ouvirem mencionar os nossos nomes e as nossas identidades. Muitas pessoas trans lutaram e morreram sem a conquista do respeito, da visibilidade e da dignidade. Esse apagamento histórico implica a negação de direitos básicos à nossa sobrevivência: corpos trans e travestis possuem mais dificuldade no acesso à educação, empregos e moradias dignas, sem falar em questões básicas que uma pessoa cisgênera sequer reflete em seu dia a dia: o uso do banheiro e dos nossos verdadeiros nomes, por exemplo, são enfrentamentos diários que afetam, de forma substancial, o nosso psicológico.
Entendo que a religião, seja ela qual for, está inclusa na sociedade e reflete as mazelas e problemas sociais que são escancarados cotidianamente. Tais espaços funcionam (ou deveriam) sob a lógica de comunidade, em que encontramos os nossos, nos acolhemos, cuidamos uns dos outros, não apenas espiritualmente. Entretanto, surge a pergunta: a quem queremos acolher? De que forma? Quem deve adentrar os nossos espaços? De que forma respeitaremos o outro?
Me abstenho de comentar todos os segmentos religiosos, devido à amplitude e à minha falta de conhecimento, além do fato de já ter me decepcionado bastante com a noção deturpada de comunidade, em que só se escolhe acolher aquele que é “igual” e reproduz o estereótipo do que uma sociedade formada sob a égide do colonialismo adotou como padrão, correto e aceitável.
Em relação ao candomblé, a minha visão – talvez romantizada, mas espero, de coração, que não seja – me traz à memória a prática do aquilombamento e do cuidado em mútuo, não apenas espiritual. É na casa de asè que estou entre os meus e as minhas, praticando, cotidianamente, o respeito e o amor ao Sagrado, aos meus e às minhas irmãs. Diferente do mundo, que nega a minha existência, estar em comunidade me traz forças para caminhar e me afirmar do jeito que sou. Estar em comunidade é isso.
Mas, por vezes, esqueço que o candomblé também é formado por pessoas que, conforme eu disse no início, vivem em uma sociedade que carrega muitas chagas e mazelas. Obviamente, teremos, nestes espaços, reproduções de preconceitos, intolerâncias, falta de empatia e escuta ao próximo, além da falta de abertura àquilo que, por conta de um apagamento histórico e social, até então pode soar como desconhecido. Isso faz com que muitos e muitas irmãs deixem as suas casas e até abdiquem dos cuidados com a sua espiritualidade, pois um espaço que deveria nos acolher como um quilombo, nos afasta e também compromete a nossa segurança. Felizmente, alguns dos nossos têm optado por trilhar o caminho da escuta e da quebra de paradigmas. Quebrar paradigmas, nesse contexto, é perceber que a existência de corpos dissidentes não é “contra a natureza”, mas nos mostra o quão diverso é o mundo e o quanto somos seres subjetivos. Também nos mostra que gênero, raça, ou qualquer outro marcador não deve soar como parâmetro de aceitação social: somos o que somos, e é dessa maneira que viemos ao mundo. A minha genitália não me define, até porque uma genitália sozinha não sai andando por aí; não abraça e não demonstra afeto. E aí? O que priorizamos? A genitália ou a magnitude do ser humano e de todas as trocas que podem potencializar a comunhão em um asè?
Dito isto, destaco que precisamos conversar sobre a existência de corpos trans e a permanência destes em terreiros e barracões. Precisamos ouvir, antes de reproduzir normas e preconceitos que são condizentes apenas com o chorume de uma sociedade que não respeita a diversidade e faz mau uso da espiritualidade para justificar o preconceito. Ouvir pessoas trans e travestis. Acolher pessoas trans e travestis. Respeitá-las nos mínimos detalhes. Fazê-las sentir-se em uma comunidade, ainda que o mundo lá fora não configure um espaço seguro. Afinal, ter uma família que nos apoia e pessoas que lutam pela nossa existência é um dos componentes que nos movem ao enfrentamento da transfobia desde o momento em que acordamos até quando vamos dormir.
O caminho é a escuta, a abertura ao aprendizado e a abominação do acolhimento seletivo. Ainda que muitos ainda sejam resistentes, não há como apagar a existência, a beleza e a espiritualidade que pulsam dentro de nós – existiremos dentro ou fora das casas de asè. Todavia, a comunidade que nega a existência e o bem-estar de um grupo por negar o enfrentar o preconceito, deixa de ser um espaço de acolhimento e está bem longe de ser um quilombo. E sobre isso, deixo o questionamento: para que serve o candomblé? Jackson Cruz Magalhaes