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Ancestralidade, tradições e imaterialidade. Esses são três pontos em comum entre muitas religiões de praticantes brasileiros. Porém, ao buscarem sua vaga no mercado de trabalho, percebem que as diferenças entre os credos são "pré-requisitos" avaliados no processo seletivo. 

"Nunca sofri intolerância religiosa no trabalho, porque eu nunca nem passei na entrevista", diz Fabíola Oliveira, graduada em Letras e muçulmana. Ela, que atuou como professora de inglês e português antes de se conectar com o Islã, conta nunca ter passado para a próxima fase da seleção após adotar o uso do hijab, lenço tradicional para cobrir os cabelos. "Eu precisei trabalhar por conta própria, porque dentro das instituições eu não consigo emprego. Isso é uma realidade de muitas muçulmanas, o mercado de trabalho para quem usa o lenço é bem restrito."

 

Hoje, a professora encontra nas redes sociais um espaço para falar abertamente, por meio da educação e do diálogo, sobre a perspectiva feminina da sua religião, mesmo sofrendo ataques constantes. "Todo muçulmano deve estudar e passar essa informação, não reter o conhecimento. Islã é justiça social, é ciência. Mas é algum ataque terrorista acontecer que o incidente reflete na comunidade muçulmana. Sou muito questionada, atacada e deslegitimada", diz.

 

Não é só Fabíola. Segundo dados do Disque 100, programa do Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos (MDH), de janeiro a agosto de 2021 foram registradas 301 denúncias e 347 violações da liberdade de religião ou crença. Os Estados com os maiores números são Rio de Janeiro, com 96 violações do direito à liberdade de religião, crença ou não crença, seguido por São Paulo, com 47 e Minas Gerais, com 39.

A população negra foi a mais atacada, totalizando 142 violações durante o ano, o equivalente a 40,92%. Além disso, as religiões de matrizes africanas foram as que mais sofreram investidas: 44 violações são contra vítimas do candomblé e 37 são contra umbandistas.

 

Segundo o professor de cultura e idioma yorubá da Universidade Federal Fluminense (UFF) Márcio de Jagun, é preciso observar que há um recrudescimento muito grande da violência contra a umbanda, o candomblé e outras religiões de matrizes africanas. "Há uma transversalidade dessa violência, que envolve a etnia e a religião, O contexto da intolerância no Brasil é étnico religioso. Há o preconceito racial junto ao preconceito religioso", destaca.

 

Foi o que sentiu a umbandista Luciane Costa na época que trabalhava como vendedora de roupas para idosas em Brasília. "As pessoas não entendem (a religião) e realizam uma espécie de preconceito velado. Acham que te xingar de macumbeira é brincadeira. Eu sempre soube respeitar as outras religiões, porém nunca fomos respeitados", diz. Luciane conta que a chefe da loja onde trabalhava diminuía suas conquistas por conta da umbanda e pelo fato de ser uma mulher negra.

 

"Durante um ano, às segundas e às sextas eu chegava de branco. Ela bufava e me olhava de cima para baixo. Além disso, quando tinham vendas grandes eu não podia fazer, por ser negra", relembra.

 

Acusado de "ensinar macumba", o professor da rede pública de ensino do Distrito Federal Pedro Ivo Silva afirma que foi interpelado apenas por trabalhar textos e imagens das religiosidades afro-brasileiras. "Pude perceber que, tanto da parte dos estudantes como da gestão pedagógica escolar, não houve o devido respeito. E ainda há muito preconceito e ignorância no imaginário social que as pessoas carregam consigo sobre religiões de matrizes africanas", ressalta.

 

O professor, que entrou para o candomblé aos 18 anos e cresceu em uma família de praticantes de religiões afro-brasileiras, como o Tambor-de-Mina e a Jurema, acredita que a sua fé o incentivou a ter foco e motivação na vida profissional. Para o educador, a conexão entre trabalho e religião ocorre ao ensinar História e cultura africana aos alunos. "Trabalho e religião, numa perspectiva de respeito e diversidade, podem ter muito a contribuir socialmente às relações interpessoais", diz.

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Fernanda Bastos - Estadão Conteúdo

Publicado: 00:00:00 - 12/09/2021Atualizado: 12:36:09 - 11/09/2021