Compositores do Samba Nordestino: histórias, fé e ancestralidade
- jornaldoaxe

- há 3 dias
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As rodas de samba estão cada vez mais marcadas pelo ritmo da senzala.
A diferença é que hoje o povo não precisa mais se esconder, porque a cultura africana está em alta, viva, presente e cantada em voz alta. As composições vêm cada vez mais cheias de ancestralidade: orixás, caboclos, exus e pomba gira. Nunca se cantou tanto ao som dos atabaques, do cavaquinho e do tantã. A música de ancestralidade envolve, puxa para dentro, faz mergulhar em ritmos que contam histórias e tradições. Os compositores buscam conexão com a resistência e com a fé, honrando a memória e a espiritualidade de quem veio antes. Vou começar falando de uma compositora e cantora alagoana, mulher de axé, cheia de ancestralidade: Jacqueline Marques.
Jacqueline recebeu um recado e apenas duas frases para dar início a uma composição e dali nasceu uma música que transformou sua própria história de vida.

Assim surgiu a canção “Mulher Búfalo”, que fala de Oyá, da sua força e da sua garra.
Um dos trechos diz: “trazendo alegria e transformação, Oyá guerreira do meu coração.”
A própria Jacqueline afirma:
“Em mulher búfalo me transformei,
e ao seu lado pra guerra eu irei.
Com sua espada eu vencerei,
e ao seu lado pra guerra irei.”
Hoje, com mais de 30 composições, Jacqueline vem subindo aos palcos do Nordeste, mostrando seu potencial e afirmando sua ancestralidade através da música.
E com esse potencial, ela consegui transformar sua vida.
Carregando consigo os conceitos de força, mistério, natureza e resistência, como Opará.
E transmitindo em cada composição a beleza e
combinando dos elementos como ritmo, harmonia e melodia.
Para acompanhar seu trabalho: @marquesjacqueline.
Edson Albuquerque: Em outra fronteira, em outro estado do Nordeste, encontrei um compositor com muitas histórias e muito talento.
Sua playlist é perfeita; nela, você encontra a força do povo negro.
Edson Albuquerque é sambista, compositor e intérprete pernambucano.
Sua trajetória musical tem início ainda na infância, aos 10 anos de idade, quando teve contato direto com rodas de samba e batucadas experiência que marcou definitivamente sua relação com o gênero.
Suas composições nascem das dores e das histórias das ladeiras do Recife, sempre com respeito, amor e devoção.

Edson, atravessado pela dor e pelo medo de perder seu filho, sem imaginar, fez uma oração ao seu orixá Ogum e ao seu protetor São Jorge.
Dessa oração nasceu uma das músicas mais lindas que já escutei: “Salve Jorge”.
Vem ser a luz da minha estrada,
iluminar minha caminhada,
ser meu companheiro,
meu santo guerreiro protetor.
Na igreja vou rezar com fé,
no terreiro meu tambor bater,
pois quem é filho seu não se cansa,
não desiste, não perde a esperança.
Salve Jorge, Ogunhê.
Com esse samba, Edson Albuquerque participou da Feijoada de São Jorge, em Maceió, onde se fortaleceu um laço de amizade e reconhecimento artístico.
Sua obra é marcada pela ancestralidade, pela fé e pelo compromisso com a memória do samba.
O samba, em sua trajetória, é identidade, é vivência e é herança.
Edson Albuquerque atua como compositor de sambas de roda e sambas-enredo, reafirmando o samba como expressão cultural viva do povo negro nordestino.
📍 Para acompanhar seu trabalho: @edsonalbuquerque
ManuDí: Ele é alagoano da terra de Zumbi, maceioense raiz.
Mas, quando se pergunta: “Você é de onde?”
Ele responde:
“Eu sou de todos os lugares. Sou do samba.”
Ele é ManuDí, cantor e compositor alagoano que tem se destacado no cenário do samba, sendo reconhecido como uma referência do gênero em Alagoas. Assinou contrato com a gravadora Radar Records Brasil e vem com composições, uma melhor que a outra, contando histórias da sua cidade e também do Brasil, com uma ancestralidade tão forte quanto a sua fé.
Seu nome está consolidado no samba alagoano.
Grandão. Iniciou sua carreira solo com o projeto “Planeta Amor”, interpretando músicas de compositores renomados. Compositor e também cantor, tem um grave marcante. ManuDí é definido por uma assinatura de estilo único, que reflete personalidade, autoconfiança e coerência como uma peça que se torna o seu DNA.
Seu sapato branco, sapato de sambista da velha guarda.
Foi assim que o conheci: cantando composições de Noite Ilustrada.
Filho de Orixá, ele quebra barreiras e sai mostrando seu potencial nesse ritmo chamado samba. Mas também abre caminhos para amigos. É idealizador do projeto “Quintal do ManuDí e o Samba Agradece”.
O samba tem padrinhos como Sereno (Fundo de Quintal), Marquinho Sathan, Toninho Geraes, Roberto Lopes e Alamir Quintal.

A ancestralidade está em suas composições como está em sua alma.
Ao som dos atabaques e com muito axé, ele agradece por todas as realizações.
ManuDí fala da música “Povo Preto”:
“Pra mim, é uma ligação direta com os meus ancestrais. Música essa em que sinto a energia deles.”
“Sou poeira das estrelas, sou um raio de luz,
sou parte do universo, sou fã do homem da Cruz.” Para acompanhar seu trabalho:
📲 @manudioficial
Gabriel Maia:
É sambista, cantor e compositor brasileiro, nascido em Maceió (AL), radicado no Rio de Janeiro e vivendo em pontes aéreas.
Embora seu carro-chefe seja o samba, ele transita por diversos gêneros musicais. Gravou ao lado de Agnaldo Timóteo o clássico samba “Canta Brasil”, de Alcir Pires Vermelho e David Nasser, em comemoração aos seus 10 anos de carreira.
Gabriel já compôs diversos sambas-enredo e desfila como intérprete oficial (puxador de samba) de várias escolas de samba. Chegou a receber o prêmio de melhor intérprete do grupo de acesso das escolas de samba do Rio de Janeiro. Também realizou um grande show comemorativo pelos 70 anos do Grêmio Recreativo Escola de Samba Império Serrano, em Madureira, Rio de Janeiro. Gabriel Maia é um ser iluminado, de coração grande. Escutar e prestigiar as pessoas é um dos papéis mais importantes que exerce na vida. Merece não apenas um “muito obrigado”, mas também reconhecimento por todo o acolhimento que oferece. Eu sei disso porque vivi essa experiência: conheci Gabriel por meio de um jornal online e, a partir daí, descobri ainda mais esse amor pelo samba.
Gabriel Maia é declaradamente espírita kardecista e, pessoalmente, não vê nenhum problema em falar da beleza dos Orixás. Suas músicas, em forma de louvação e homenagem, são feitas com muita seriedade e carinho.
“O espiritismo me ensinou desde cedo a respeitar todas as crenças, e tenho profundo respeito e carinho pelo povo de Axé, pois são nossos queridos irmãos fraternos. Já fiz sambas em homenagem a Iemanjá, Logun Edé e Pretos Velhos.”
Sua música mais recente se chama “Mensagem de Preto Velho” e está disponível em seu canal no YouTube, Sambista Gabriel Maia.
“Uma das músicas que compus acabou virando ponto. Se chama ‘Tributo a Zé Pelintra e Maria Navalha’. Um grande sucesso propagado por nossos irmãos e irmãs de matriz africana”, diz o sambista.

Zé, cadê Maria?
Maria, cadê o Zé?
Zé, cadê Maria?
Maria, cadê o Zé?
Maria Navalha com sua pirraça,
sua valentia, firmeza e fé.
Ela dança no jongo, joga capoeira,
com sua beleza conquistou o Zé.
Conheça mais sobre a trajetória do artista acessando seu canal no YouTube. Basta digitar: Sambista Gabriel Maia.
Mel Nascimento: É alagoana e iniciou sua carreira artística aos 13 anos, cantando em coros. É graduada em Música pela UFAL e, desde então, constrói uma trajetória sólida, marcada por talento, identidade e resistência.
Já conquistou diversos prêmios por meio de editais culturais. A lista é extensa assim como seu potencial. Sua voz é bela e firme como as rochas de Xangô.
Participou de projetos importantes, abrindo shows de grandes artistas nacionais como Margareth Menezes, João Bosco, Fundo de Quintal e Mart’nália. São muitos lançamentos, participações e premiações. Entre as mais significativas, destaca-se o Troféu Selma Bandeira, concedido pela sua relevante atuação na área cultural de Maceió.
Em 2021, lançou seu segundo álbum, “Força de Mulher”, que foi pré-selecionado para o Grammy Latino 2021, na categoria de Melhor Álbum de Rock ou Música Alternativa em Língua Portuguesa.
Todos os anos, Mel apresenta novos trabalhos. Seu release completo exigiria muitas páginas ela não para.
Em 2025, lançou o single “Odoyá” e o videoclipe “Ô Mulé”, um trabalho potente com mulheres de matriz africana de Maceió. Essas mulheres fazem questão de estar ao lado dessa cantora que inspira não só pela voz, mas pelo que é: uma mulher ou melhor, uma “mué” autêntica, carismática, generosa e presente.
Uma mulher fodástica.
Mel é fogo e dendê, mas também é coração.
Eu assino o que me cabe dizer: sempre que precisei dela, ela estava comigo inclusive na feijoada de São Jorge.
Mel Nascimento está ali, aqui, em todos os lugares.
“Ô mulé, cadê tu?”
Atualmente, está em plena construção do Game Alagadiça, com a música “Força de Mulher”, e se prepara para gravar seu próximo álbum, “A Essência da Jurema”.
Será que ainda preciso explicar quem é essa mistura de trovão e relâmpago?
Entre tudo o que ela já cantou, “Força de Mulher” talvez seja a obra que melhor revela a nordestina alagoana que ela é, com todos os atributos aqui descritos:

“Luto com a força de Dandara,
com braços de mulher quilombola.
É luta que existe e não para,
é luta pra mudar essa história.
Falo no compasso do atabaque,
gingo no batuque do tambor.
Me entrego de corpo e alma
e trago na voz a luta,
minha força, minha voz e minha cor.
Não perco a esperança,
não perco minha fé,
vivo com a coragem de uma mulher.”
Essa composição só poderia ser assinada por ela:
Mel Nascimento.
🔗 Para acompanhar seu trabalho:
Instagram: @melnascimento._
YouTube: Mel Nascimento
Chego ao fim desta primeira etapa de um belo trabalho. Escrever sobre esses compositores foi como entregar ao mundo histórias cheias de potência, fé e ancestralidade histórias que precisam ser vistas, lidas e ouvidas.
Que essa seja apenas a primeira de muitas matérias.
“Compositores do Samba Nordestino
História, fé e ancestralidade”
Eu sou uma mulher de matriz africana, que ama o samba, que respeita suas raízes e caminha com a música como forma de resistência e memória.
Eu sou Ekedy Nadja – Omí Afefé.










Muito obrigado por essa maravilhosa matéria retratando um pouco da trajetória de todos nós amantes da boa música brasileira! Gratidão ❤️🙏🏻
Muito bom. ManuDí é referência no samba em Alagoas.
"O samba é mais do que uma música, é uma forma de honrar nossos ancestrais e celebrar nossa herança cultural. Agradeço a oportunidade de falar um pouco da nossa estória, nossa ansetralidade, e do nosso samba
Salve o sambaaaaaaaa!!!!!!!!
Que matéria linda, muito importante o relato das histórias de pessoas que são resistência a violência e preconceito, utilizando a arte para tocar os corações!🥰
Esse trabalho é muito importante para da visibilidade as pessoas de terreiro, cantores, compositores, artistas 🎨. É um grande fortalecimento e crescimento para nossa história e cultura. Para eked Nadja Cabral.