Macumbeiros vão às ruas em São Paulo, em um grito de fé, resistência — mas também um alerta para quem ainda assiste de longe!
- jornaldoaxe

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Atualizado: há 2 dias
Neste domingo, 31 de março de 2026, às 12h, o Povo de Axé foi às ruas em São Paulo, mostrou sua força e deixou um recado: só é respeitado quem aparece.
Em frente ao Teatro Municipal, o Axé levantou sua voz — mas ainda falta muito para a comunidade entender que a luta é de todos os macumbeiros, seja de Umbanda, Candomblé, Jurema, Quimbanda e todas as demais vertentes.
O Jornal do Axé valoriza, respeita e aplaude profundamente a manifestação realizada em frente ao Teatro Municipal. Mas não podemos olhar para esse evento apenas com romantismo. Precisamos olhar também com responsabilidade.
O evento foi bom. Foi importante. Teve força simbólica. Surpreendeu em alguns aspectos. Mas, infelizmente, não fugiu à regra da nossa comunidade: muita gente reclama, pouca gente participa.
São Paulo é uma cidade imensa. Fala-se em milhares e milhares de terreiros espalhados pela capital e pela região metropolitana. São casas de Umbanda, Candomblé e outras vertentes, com médiuns, filhos de santo, dirigentes, frequentadores, simpatizantes, consulentes, famílias inteiras que vivem ou procuram o Axé de alguma forma.
Diante dessa realidade, diante da divulgação feita, diante da importância do tema, era para a manifestação impressionar muito mais. Não estamos falando de vaidade. Não estamos falando de “ibope”. Não estamos falando de aparecer por aparecer. Estamos falando de força de mobilização.
Uma manifestação grande chama a atenção das autoridades. Chama a atenção da imprensa. Chama a atenção dos políticos. Chama a atenção de quem decide lei, verba, política pública, fiscalização, proteção, educação e cultura.
E precisamos falar com clareza: político enxerga número, enxerga voto, enxerga povo na rua. Quem não aparece, não pesa. Só é respeitado quem é visto. Só é valorizado quem participa.
A comunidade de Axé precisa entender isso de uma vez por todas. Não adianta reclamar do vizinho intolerante, do fiscal da prefeitura, do policial despreparado, do vereador preconceituoso, da escola que desrespeita a criança de santo, da televisão que ataca a nossa fé, do pastor que demoniza os nossos fundamentos, se, na hora de ocupar a rua, muita gente simplesmente não aparece.
Reclamar depois é fácil. Postar indignação é fácil. Fazer texto bonito nas redes sociais é fácil. Difícil é sair de casa, pegar condução, levar sua guia, sua roupa branca, sua bandeira, sua coragem e ficar ali, de corpo presente, dizendo: “Eu existo, minha fé existe, meu terreiro existe, meu povo existe”.
A verdade é dura, mas precisa ser dita: uma parte grande do povo de Axé ainda não tem consciência participativa. Ainda olha só para dentro da própria casa. Ainda acha que basta fazer a gira, cuidar do congá, atender consulente, fazer festa, tocar tambor e manter a rotina espiritual. Tudo isso é fundamental, ninguém está negando.
Mas uma religião que só olha para dentro acaba ficando fraca do lado de fora.
E é do lado de fora que a intolerância cresce. É do lado de fora que se fazem leis. É do lado de fora que se disputa espaço. É do lado de fora que a criança de santo sofre preconceito na escola. É do lado de fora que o terreiro é denunciado por barulho, por roupa, por vela, por atabaque, por folha, por oferenda. É do lado de fora que a nossa fé é atacada.
Então, também é do lado de fora que precisamos nos apresentar.
Muitos religiosos precisam entender que política não é apenas eleição.
Política não é apenas partido.
Política é tudo que organiza a vida em sociedade.
Política cultural, religiosa, da saúde, da educação, da segurança, de direitos humanos.
Quando o povo de Axé não participa desses espaços, outros ocupam por nós.
E quando outros ocupam por nós, não podemos estranhar quando decidem contra nós. Enquanto a comunidade de Axé continuar desunida, presa em vaidade de terreiro, disputa de federação, briga de liderança, diferença de fundamento e medo de se misturar, os grupos que atacam as religiões de matriz africana continuarão se sentindo fortes, organizados e à vontade para avançar.
Eles se organizam. Eles fazem bancada. Eles fazem campanha. Eles elegem representantes. Eles ocupam televisão, rádio, jornal, escola, conselho, secretaria, câmara municipal, assembleia legislativa e Congresso. E nós?
Nós, muitas vezes, ficamos discutindo quem é mais antigo, quem é mais certo, quem tem mais fundamento, quem tem mais filho, quem tem mais título, quem tem mais nome.
Enquanto isso, a intolerância não dorme.
Por isso, este evento precisa servir como marco de reflexão. Não apenas como uma manifestação bonita, mas como um chamado. Um chamado para que o povo de Axé acorde, participe, se una e entenda que a luta não é de uma casa só. Não é de uma federação só. Não é de um dirigente só. Não é de uma religião isolada. É de todos nós.
Os presentes nos representaram e fizeram valer
Quem estava lá representou muito mais do que a si mesmo. Representou também muitos que deveriam estar e não foram. Representou os terreiros que ficaram calados. Representou os médiuns que reclamam, mas não participam. Representou os dirigentes que pedem respeito, mas não mobilizam seus filhos. Representou uma comunidade inteira que ainda precisa aprender a transformar fé em presença coletiva.
Não desistam, não desanimem, persistam e insistam. Temos que deixar de nos esconder, rastejar e lamentar. Parabéns, vocês realmente são de axé e têm fé.
E que fique claro: não se trata de atacar quem não foi. Cada pessoa tem sua realidade, seu trabalho, sua família, sua dificuldade, sua distância, seu problema. Mas também não podemos usar isso como desculpa eterna para justificar a ausência de uma comunidade inteira. Quando uma causa é urgente, ela precisa virar prioridade. E a defesa da nossa fé é urgente.
O Jornal do Axé deixa aqui seu reconhecimento a todos que fizeram esse movimento acontecer. A iniciativa foi valiosa, necessária e merece continuidade. Mas deixa também um alerta: se queremos respeito, precisamos aparecer. Se queremos direitos, precisamos participar.
Se queremos proteção, precisamos nos organizar. Se queremos ser ouvidos, precisamos falar juntos.
Chega de cada um por si.
Chega de terreiro isolado.
Chega de dirigente olhando apenas para o próprio chão.
Chega de povo de Axé forte dentro da gira e fraco na rua.
A hora já passou de termos união. Passou da hora de ter uma consciência participativa e de responsabilidade social. A hora é de entender que a nossa fé não pode ser lembrada apenas quando é atacada. Ela precisa ser defendida antes, durante e depois do ataque.
Porque quem não ocupa espaço acaba sendo empurrado para fora dele.
E o povo de Axé não nasceu para viver escondido. Nasceu para cantar, tocar, rezar, curar, acolher, resistir e também lutar.
Que essa manifestação seja apenas o começo.
Que os próximos encontros tragam mais casas,
Mais dirigentes, mais médiuns, mais simpatizantes,
Mais famílias, mais vozes e mais coragem.
Que cada terreiro entenda que sua força não termina no portão.
Que cada filho de fé entenda que sua responsabilidade não termina na gira.
Que cada liderança entenda que representar o Axé
é também educar sua comunidade para participar.
Só é respeitado quem é visto.
Só é valorizado quem participa. Parabéns,
E só muda a história quem tem coragem de fazer parte dela.
Se concorda, participe, comente, ajude a divulgar. Se não concorda, tudo bem, mas pare de reclamar, lamentar e procurar culpado. Você não vai encontrar no outro o que está em você.
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Entendo que nossa realidade de consciência participativa é bem abaixo do esperado e necessário. Mas quem sabe, que atrávez deste manifesto possamos motivar e fazer a corrente de bem. Vamos... somos todos macumbeiros.
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