Mulheres de Axé: liderança, profissão e resistência além do terreiro
- jornaldoaxe

- 6 de mar.
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Março é marcado pelo Dia Internacional da Mulher (8 de março). Mas quando falamos de mulheres de axé, a homenagem não cabe em um único dia. Elas são presença diária de força, sabedoria, resistência e cuidado.
Nas religiões de matriz africana, muitas mulheres ocupam posições de liderança espiritual e, ao mesmo tempo, atuam de forma decisiva na sociedade. São professoras, enfermeiras, assistentes sociais, gestoras, militantes e empreendedoras. Mulheres que carregam o axé do terreiro para além de seus portões e o transformam em ação concreta no mundo.
Esta matéria homenageia três dessas lideranças femininas que representam a força da mulher de axé: Yá Carla de Oxum, Yá Mônica Carvalho e Cristovia Vieira Vasconcelos. Histórias diferentes, mas unidas por um mesmo princípio: fé, coragem e compromisso com a comunidade.
Yá Carla de Oxum: fé e ciência caminhando juntas

Carla Vieira, 46 anos, filha de Oxum, é yalorixá do Axé Yàpandàlomim Ofaquerm Raízes Legionirê Nito Xoroquê. Mulher negra, periférica, mãe, esposa e avó, construiu uma trajetória que ultrapassa os limites do seu ilê.
Administradora e gestora de Recursos Humanos, Carla é atualmente discente em Enfermagem, mostrando na prática que a fé e o conhecimento acadêmico podem caminhar lado a lado.
Para ela, os caminhos fora do terreiro são espaços onde profissão e espiritualidade se encontram — e também se confrontam. O desafio não está na convivência entre ciência e fé, mas no preconceito ainda presente na sociedade brasileira.
Ser mulher negra em posição de liderança já representa um enfrentamento diário. Ser mulher negra, de religião de matriz africana, e ocupar espaços acadêmicos e profissionais amplia ainda mais esse desafio.
Mesmo diante de olhares de julgamento e silêncios carregados de preconceito, Carla segue firme em sua caminhada. Para ela, a fé não diminui a ciência — fortalece a capacidade de cuidar.
Essa missão se expressa também no projeto “Mãos que Acolhem”, iniciativa voltada ao apoio e acolhimento de mulheres. Mais do que um projeto, trata-se de uma prática diária de solidariedade, cuidado e responsabilidade social.
Inspirada pelos ensinamentos de Oxum, que representa o cuidado, o acolhimento e a sensibilidade, Carla exerce sua liderança tanto no terreiro quanto na vida profissional.
Yá Mônica Carvalho: cultura, política e ancestralidade

A história de Mônica Carvalho, 57 anos, é marcada por coragem, superação e compromisso com sua identidade.
Mãe na adolescência e mãe solo, enfrentou desafios desde muito jovem. Em 1994, encontrou nas religiões de matriz africana uma nova caminhada ao chegar ao Ilê Axé Legioniré, liderado por Pai Manoel de Xoroquê.
Foi nesse espaço que encontrou não apenas espiritualidade, mas também uma família de axé que ajudou a fortalecer sua trajetória.
Mesmo tendo interrompido os estudos durante a juventude para se dedicar à maternidade, Mônica nunca abandonou o desejo de seguir aprendendo. Aos 38 anos, conquistou sua graduação em Serviço Social, ampliando sua atuação na defesa de direitos e no trabalho comunitário.
Sua caminhada também passou pela arte. Durante 18 anos, esteve envolvida com teatro e produção cultural em Maceió, participando de espetáculos, produções audiovisuais, programas de televisão e eventos culturais.
Paralelamente, atuou no serviço público nas áreas de Turismo, Educação, Cultura, Direitos Humanos, Medidas Socioeducativas e Políticas para as Mulheres, acumulando experiência na elaboração e implementação de políticas públicas.
Essa vivência a levou ao Mestrado em Sociologia, onde aprofundou reflexões sobre sociedade, política e identidade.
A presença da matriz africana sempre esteve presente em sua caminhada. Como orientavam seu babalorixá e os recados dos orixás, seu caminho também estava nas ruas, nos movimentos sociais e na política.
Em dezembro de 2023, Mônica se filiou ao Partido dos Trabalhadores, participando da criação de um núcleo de matriz africana em Alagoas, com o objetivo de fortalecer a organização política do povo de terreiro e ampliar a luta contra o racismo religioso.
Sua trajetória demonstra que liderança espiritual também pode se transformar em liderança social e política.
Cristovia Vieira Vasconcelos: fé, justiça e ação social

Natural de Santana do Ipanema, no sertão de Alagoas, Cristovia Vieira Vasconcelos, 51 anos, é filha de Oyá e representa a força da mulher sertaneja.
Filha de dona Cristina, mãe de dois filhos e casada há 25 anos, construiu sua vida marcada pela determinação e pela coragem de enfrentar desafios.
À frente do Centro Espírita Santa Bárbara, Cristovia desenvolve um trabalho social expressivo que acompanha 157 famílias em situação de vulnerabilidade social.
Assistente social e bacharel em Direito, utiliza sua formação como instrumento de transformação social, orientando a comunidade sobre direitos e cidadania.
Para ela, fé e justiça caminham juntas. Sua atuação busca combater problemas estruturais como fome, desigualdade social, racismo religioso e violência contra mulheres.
No ambiente acadêmico e profissional, sua presença representa muito mais do que um diploma. Cristovia simboliza a mulher negra, sertaneja e de matriz africana ocupando espaços que historicamente foram negados a pessoas com sua origem.
Além da atuação social e religiosa, também empreende no projeto “Tempero de Vó”, iniciativa que transforma culinária, memória ancestral e afeto em sustento e fortalecimento cultural.
Mulheres que lideram com axé
As histórias de Yá Carla, Yá Mônica e Cristovia mostram que a liderança feminina nas religiões de matriz africana vai muito além do espaço do terreiro.
Essas mulheres educam, cuidam, defendem direitos, organizam comunidades e constroem caminhos para outras gerações.
Em um país onde o racismo religioso ainda é uma realidade, suas trajetórias representam resistência, dignidade e continuidade da ancestralidade.
Mais do que homenagear, reconhecer essas histórias é afirmar que as mulheres de axé são protagonistas na construção de uma sociedade mais justa, diversa e consciente de sua própria história.
Porque o axé não se limita ao sagrado.
Ele vive no cuidar, no ensinar, no lutar e no transformar.
✍🏾 Redação – Jornal do Axé










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