POVO DO AXÉ LOTOU ALESP. QUEM FALTOU TAMBÉM VIROU NOTÍCIA.

Encontro reúne mais de 850 pessoas na ALESP, reconhece 187 dirigentes indicados pelas federações e expõe a ausência da maioria das autoridades convidadas.

Na noite de 22 de outubro de 2026, o povo do Axé ocupou a Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo com uma presença que dificilmente poderá ser ignorada.
O Encontro dos Religiosos do Axé reuniu, segundo o balanço da organização, aproximadamente 250 lideranças religiosas e um público superior a 850 pessoas, formado por sacerdotes, sacerdotisas, filhos de fé, familiares, amigos e representantes de diferentes tradições.
Umbanda, Candomblé, Jurema, Quimbanda, Ifá e outras expressões de matriz africana, afro-brasileira e indígena dividiram o mesmo espaço com respeito, organização e consciência coletiva.
O encontro foi realizado pelo Jornal do Axé, com coordenação da Conecthar Gestão e participação das federações AFRO BRASIL ATUCO e CONEAFRO, além de instituições parceiras das áreas administrativa, contábil, jurídica, cultural e religiosa.
Os números da mobilização
Das lideranças mobilizadas diretamente pelas três federações, 187 receberam a homenagem Liderança Destaque 2026:
A Federação Afro Brasil participou com 96 dirigentes;
A Federação ATUCO levou 74 dirigentes;
A Federação CONEAFRO esteve representada por 17 dirigentes.
Os números não devem ser interpretados apenas como uma classificação entre instituições. Eles demonstram a capacidade de mobilização das federações e, principalmente, a disposição dos religiosos em sair de seus terreiros para ocupar um espaço público de decisão política.

O público superou a capacidade de assentos do auditório. Muitas pessoas acompanharam a cerimônia em pé, nas áreas laterais, nos corredores e nos espaços superiores.
Apesar da lotação, não houve registro de incidente relevante. As equipes atuaram com recepções separadas e sinalizadas por federação, camisetas e crachás de identificação, controle por pulseiras coloridas e orientação permanente ao público.
Em um ambiente marcado pela diversidade de vestimentas, tradições e hierarquias religiosas, prevaleceram o respeito, a paciência e a colaboração.
Uma abertura marcada pela fé e pela ancestralidade
A programação começou com cantos, atabaques e manifestações religiosas, criando uma atmosfera de acolhimento antes da abertura oficial.
A cerimônia contou com a execução do Hino Nacional, seguida por referências musicais à Umbanda e ao Candomblé. O cerimonialista João Ribeiro conduziu a composição da mesa, as manifestações institucionais e a entrega das homenagens.
O deputado estadual Carlos Giannazi, anfitrião institucional, declarou que, em seus cinco mandatos, nunca havia presenciado uma ocupação daquela dimensão por integrantes das religiões afro-brasileiras na Assembleia Legislativa.

Sua manifestação destacou a dívida histórica do Brasil com o povo negro, a importância da liberdade religiosa e a necessidade de enfrentar o racismo estrutural e a discriminação contra as comunidades de terreiro.
O parlamentar também assumiu dois compromissos públicos: buscar um espaço maior para a edição de 2027 e iniciar os procedimentos para o reconhecimento da entidade Afro Brasil como de utilidade pública. A concretização deste segundo compromisso ainda dependerá da apresentação dos documentos necessários e da tramitação de um projeto de lei.
Quem realmente falou no encontro
A gravação completa mostra que a programação foi adaptada ao volume de público e à necessidade de realizar a entrega de quase 200 homenagens. Em vez de palestras longas, foram feitas manifestações objetivas, orientações institucionais e falas de conscientização.
Pai Gamby de Xangô falou em nome do conjunto das federações e dos parceiros.
Em sua abertura, destacou que um galho sozinho pode ser quebrado, mas vários galhos unidos resistem. Também convocou os religiosos a ocuparem espaços públicos onde são discutidas leis que podem proteger ou prejudicar suas comunidades.
Representando a Federação ATUCO, Davi Freitas apresentou a experiência acumulada pela instituição em mais de 16 anos de atuação. Sua fala valorizou o acolhimento, a regularização das casas, a orientação aos dirigentes e a parceria entre federações independentes, mas não adversárias.
A representante da CONEAFRO explicou a atuação da entidade como conselho nacional construído com a participação dos próprios religiosos. Defendeu união, organização, liberdade de culto e participação ativa das lideranças nas decisões que atingem suas comunidades.
Pela Federação Afro Brasil, Isabella Colares falou sobre uma instituição que, embora possua uma estrutura mais recente, reúne profissionais e dirigentes com décadas de experiência. Ela ressaltou que autonomia e parceria podem caminhar juntas e pediu maior participação dos associados nas ações, projetos e redes sociais da federação.
Mãe Dayanne de Oxum apresentou os Paladinos do Axé. Explicou que não se trata de uma nova federação, mas de um movimento de conscientização, mobilização e inclusão social, voltado à transformação da união em projetos, formação, geração de renda e oportunidades para as comunidades.
O contador Luiz Antônio, representando a Contabilidade para Terreiro e a ASCOTRI, trouxe orientações práticas sobre regularização, documentação e prevenção. Alertou que uma instituição religiosa não pode ser tratada simplesmente como um MEI ou comércio comum e criticou orientações oferecidas por pessoas sem conhecimento das particularidades dos terreiros.
A conselheira Keila apresentou o trabalho do Conselho Municipal de Defesa e Promoção da Liberdade Religiosa — COMPLIR. Sua fala abordou políticas públicas, acolhimento de denúncias, combate à intolerância e construção de diálogo entre o poder público e a sociedade.
Mãe Su de Nanã encerrou a sequência de manifestações defendendo maior participação social e política do povo do Axé. Segundo sua reflexão, separar completamente religião e política favorece o apagamento e enfraquece a presença das comunidades nos espaços onde as decisões são tomadas.
O reconhecimento das lideranças
A entrega dos diplomas Liderança Destaque 2026 foi realizada em blocos, começando pela CONEAFRO, seguindo pela ATUCO e terminando com a AFRO BRASIL. Cada homenageado foi chamado, recebeu seu diploma e participou do registro fotográfico com seu grupo. O público foi orientado a permanecer até o final, para que os últimos homenageados recebessem o mesmo acolhimento e os mesmos aplausos destinados aos primeiros.
Mais do que entregar um documento, a cerimônia reconheceu pessoas que mantêm casas religiosas, preservam conhecimentos ancestrais, orientam comunidades e enfrentam diariamente preconceito, burocracia e invisibilidade.

O Axé compareceu. E as autoridades?
O sucesso do encontro também deixou uma pergunta incômoda. Segundo a organização, mais de 50 autoridades, entre vereadores, deputados, representantes de secretarias e integrantes de órgãos públicos, receberam ofícios ou convites para participar.
A presença política efetiva, entretanto, ficou praticamente concentrada no deputado anfitrião, Prof. Carlos Gianazz. Houve também a participação institucional de uma conselheira do COMPLIR, mas a maioria das autoridades convidadas não compareceu e, em muitos casos, sequer encaminhou justificativa formal.
Essa ausência não diminui a grandeza do encontro. Ao contrário: torna seu significado ainda mais político. Se mais de 850 pessoas conseguem se organizar, enfrentar deslocamentos, permanecer em pé e ocupar respeitosamente a Casa do Povo, por que tantas autoridades não encontram tempo para ouvir suas demandas?
A pergunta precisa ser feita sem partidarismo e sem transformar o evento em campanha eleitoral. Representantes públicos têm o dever de dialogar com todas as parcelas da sociedade, inclusive fora dos períodos de eleição.
O povo do Axé não deve ser lembrado somente quando alguém procura votos, apoio comunitário ou uma fotografia dentro do terreiro.
Uma parceria sem disputa de protagonismo
Outro resultado importante foi a atuação conjunta das três federações. AFRO BRASIL, ATUCO e CONEAFRO mantiveram suas identidades, equipes, associados e formas próprias de trabalhar. Ao mesmo tempo, demonstraram que instituições independentes não precisam agir como inimigas.
Não houve necessidade de declarar qual seria a maior, a mais antiga ou a única representante legítima. Cada uma apresentou sua estrutura e mobilizou seu público, enquanto todas colaboraram para o resultado coletivo.
Esse talvez seja um dos principais ensinamentos deixados pelo encontro: unidade não significa uniformidade. É possível preservar diferenças, autonomia e personalidade institucional sem alimentar rivalidades que enfraquecem toda a comunidade.
Da ALESP para o Brasil
A mobilização não ficou restrita ao espaço físico. Até 27 de outubro, a gravação no canal do Jornal do Axé aproximava-se de sete mil visualizações. Segundo a equipe de comunicação, a transmissão também recebeu mais de mil mensagens e manifestações do público.
Esse alcance permitiu que pessoas de outras cidades e estados acompanhassem as falas, as homenagens e a movimentação dentro da Assembleia Legislativa.
A gravação permanece disponível e pode ser compartilhada. Ela não registra apenas uma cerimônia: documenta um momento de organização, ocupação institucional e afirmação pública das comunidades do Axé.
O encontro terminou, mas a cobrança começou
O Encontro dos Religiosos do Axé 2026 mostrou que existe público, liderança, organização e capacidade de mobilização.
Também revelou desafios: a necessidade de um espaço maior, de maior participação dos associados nas ações institucionais e, principalmente, de uma relação mais séria e permanente entre o poder público e as comunidades de terreiro.
A próxima edição não poderá ser apenas uma repetição. Precisará transformar a força demonstrada em projetos, políticas públicas, formação, inclusão social e proteção efetiva contra a intolerância e o racismo religioso.
O povo do Axé compareceu. Organizou-se, respeitou as regras, homenageou suas lideranças e ocupou a Casa do Povo. Agora, quem faltou precisa decidir se continuará ignorando essa força ou se finalmente estará disposto a ouvi-la.
A história foi construída. E este movimento está apenas começando.
Assista à gravação completa: https://www.youtube.com/live/6oC7-PskCcA
Curta, compartilhe e registre seu depoimento. Se você participou, informe sua casa, sua cidade e a federação que o acompanhou. Sua manifestação também faz parte desta história.
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